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2597/2598 - Junho/Julho de 2018

Editorial

General José Luiz Pinto Ramalho*

 

Em 12 de Junho, em Singapura, teve lugar a Cimeira entre o Presidente dos EUA e o Chairman Kim (como passou a ser designado o líder norte-coreano), cuja importância teve, do lado dos analistas mais críticos, uma avaliação política estratégica marcada por uma interrogação quanto aos efetivos resultados obtidos e quanto e quem teria, efetivamente atingido os seus objetivos, assumindo-se para uns e para outros a figura do “copo meio vazio ou meio cheio”.

Contudo, importa seguir no tempo as diversas posições dos EUA, da Coreia do Norte e da China para avaliar de onde se partiu e onde se chegou com esta Cimeira. Temos presente que a Coreia do Norte foi justificando a necessidade dos ensaios nucleares e dos testes com os mísseis de cada vez maior alcance e a necessidade de poder atingir território americano, com quatro grandes premissas: a garantia da sobrevivência do regime e o fim das “ameaças” americanas, o reconhecimento como potência nuclear, o tratamento como uma potência normal, sem restrições no quadro internacional, e o levantamento das sanções económicas e políticas a que tem sido sujeita.

Assistimos ao avolumar das tensões entre a Coreia do Norte e os EUA, com um discurso belicista, simultaneamente à participação nos Jogos Olímpicos na Coreia do Sul e à deslocação de Kim Jong-Un a este país e à China. Paralelamente, a China sugeria, como forma de abrandar a tensão na península coreana, uma política de “dual track approach”, materializada pela suspensão dos testes nucleares por parte da Coreia do Norte e das manobras militares conjuntas entre a Coreia do Sul e os EUA.

Dos encontros na China, Kim percebeu um conjunto de aspetos muito importantes. O lado chinês não reconheceria nem aceitava o seu estatuto de potência nuclear, mas não queria uma situação de caos que favorecesse uma reunificação sob a égide da Coreia do Sul, trazendo as tropas americanas para a fronteira chinesa e o desanuviamento flexibilizaria as sanções impostas do seu lado. Paralelamente, uma melhoria de relações com a Coreia do Sul facilitaria os contactos no domínio económico e trocas comerciais com este país.

Da Cimeira de Singapura saiu a afirmação de um Acordo em quatro grandes questões: uma nova política de relacionamento entre os EUA e a Coreia do Norte, com garantias de segurança para o país e para o regime, uma nova política de segurança e estabilidade na península coreana, a desnuclearização da Península Coreana e o retorno aos EUA dos restos mortais de americanos mortos (5300 PoW/MIA). Paralelamente, o Presidente Trump informou a suspensão das manobras conjuntas com a Coreia do Sul e o Chairman Kim comprometeu-se a desmantelar também o local de testes de motores para mísseis.

Confrontado relativamente às garantias do processo de desnuclearização, o Presidente Trump referiu que disponha de três instrumentos que só se alterariam, à medida que aquele processo se fosse tornando irreversível e que deveria estar mecânica e tecnicamente concluído até ao final de 2020: as sanções económicas que manter-se-iam e seriam aliviadas de acordo com os progressos verificados, as manobras conjuntas, que poderiam vir a ser reiniciadas e a não redução da presença militar americana (28500 militares US) que hoje é uma realidade na Coreia do Sul.

No regresso aos seus países, o Presidente Trump pôs a tónica do seu discurso no facto de a Coreia do Norte não constituir mais uma ameaça aos EUA e na desnuclearização da península coreana e o Chairman Kim nas garantias de segurança americanas e no fim das manobras militares conjuntas entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Ambos referiram o novo ambiente de relações bilaterais, com Kim a ser convidado para visitar a Casa Branca e Trump a aceitar um convite para, no futuro, visitar a Coreia do Norte.

De tudo o que foi referido pode concluir-se que estão dados passos no sentido de uma nova relação e uma possível desnuclearização da península coreana, saudada internacionalmente pela Europa, mas especialmente pela China, pela Rússia e pelas Nações Unidas. Foi saudada pelo Japão também, embora talvez menos efusivamente por Shinzo Abe, que contava com a prevalência da ameaça norte coreana para continuar a transformação das forças armadas japonesas, incluindo eventualmente o acesso a tecnologias, em parceria americana, que contrabalançassem a capacidade nuclear de Pyongyang.

Interessante notar também é o facto de, na atualidade, nos EUA e também nos “media” internacionais, se começar a referir o Presidente Trump em moldes diferentes do que até agora era habitual, de imprevisível, de impreparado para a função, perigoso, inconstante e não confiável, para uma apreciação de “presidente peculiar e não convencional, adepto e confiante na diplomacia tradicional (?)”.

 

* Presidente da Direção da Revista Militar.

 

 

Resumo do Acervo Articular da Revista

 

1. Regresso ao futuro. A persistência do militar-leninismo enquanto conceptualização da guerra

    Coronel Nuno Correia Neves

O pensamento militar soviético incorporou a influência do pensamento político de Lenine, desenvolvendo a conceptualização da guerra como um processo supra domínio de transformação do adversário, no qual a guerra é encarada como um conflito permanente entre modelos de sociedade. Ao contribuir para uma militarização do pensamento político, o Leninismo veio, assim, condicionar as relações internacionais de uma forma crescente, à medida que a União Soviética se tornava uma superpotência, contribuindo para a radicalização geral da política que viria a dar à II Guerra Mundial um grau de destruição e horror numa escala nunca antes atingida.

Esta conceção sofreu um apagamento temporário após a queda da União Soviética, mas foi recuperada pelo conceito Chinês de “guerra sem restrições”, e parcialmente replicada por algumas teorizações e práticas nos Estados Unidos. Lenine estava, assim, uma geração à frente na conceptualização da guerra, apesar de ser cronologicamente de uma geração anterior (a guerra de terceira geração corresponde a modelos introduzidos no final da I Guerra Mundial e a guerra sem restrições é caracterizada como sendo uma quinta geração) e a aplicação do modelo soviético veio a demonstrar o seu potencial na transformação da Europa de Leste na II Guerra Mundial.

O objetivo deste ensaio é caracterizar o pensamento político militar soviético enquanto forma de conceptualizar a guerra e analisar a sua influência nas recentes teorias da guerra e na condução dos conflitos atuais, por forma a avaliar se existem semelhanças entre esse modelo e as conceptualizações da guerra atualmente em discussão nos Estados Unidos e na China, bem como com as práticas do “islão radical”, e avaliar a aplicabilidade perante eles de uma versão da doutrina de Containment empregue contra a perceção de ameaça comunista após a II Guerra Mundial.

 

2. O Processo Estratégico de Colonização Ultramarina Americana: da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto à Ordem Americana de Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson

    Francisco José de Carvalho Cosme

Após a Guerra Hispano-Americana de 1898, os Estados Unidos da América dispõem finalmente de supremacia no seu continente e no Pacífico, transformando-se em verdadeira potência e desenvolvendo, a partir de então, um processo estratégico de desenvolvimento de colonialismo ultramarino.

O artigo procura demonstrar que este foi um processo político, estratégico e voluntário, fundamentado no Destino Manifesto, materializado no período que decorre desde a formulação da Doutrina Monroe até ao estabelecimento da nova ordem mundial, no rescaldo da vitória dos EUA na I Guerra Mundial.

 

3. Comemorações do Tricentenário do Lançamento da Primeira Pedra do Real Edifício de Mafra (17 de novembro de 1717) - “No Tempo do Régio Prestígio de D. João V. Contexto Militar e edificação do Monumento de Mafra”

   Tenente-Coronel Abílio Pires Lousada

O artigo relata os factos históricos que suportaram a tomada de decisão do rei D. João V em mandar erguer o Real Edifício de Mafra.

Desde 1711, ano em que mandou exarar o alvará que determina a edificação do Convento, até 1750, ano da sua conclusão, o autor descreve, cronologicamente e apoiado numa vasta bibliografia, o processo de construção que transformava Mafra numa “vila nova”, com a chegada de milhares de trabalhadores e de militares.

 

4. O caso dos bombardeiros Canberra e as relações luso-britânicas durante a guerra colonial

   José Matos

Durante a guerra colonial, o Governo Português ponderou, várias vezes, adquirir aviões de combate ingleses para usar na guerra que mantinha em África. Perante as restrições americanas no fornecimento de equipamento militar, Portugal virou-se para o seu velho aliado e fez várias tentativas para comprar aviões militares britânicos, embora sem sucesso. Analisamos aqui as relações políticas e aeronáuticas entre os dois países no início da guerra colonial (1962/64) durante os governos conservadores de Macmillan e de Douglas-Home e as tentativas de equipar a Força Aérea Portuguesa com bombardeiros ingleses Canberra.

 

5. Elementos de informação constantes dos capítulos das crónicas:

    a) Crónicas Militares:

  • Capacetes Azuis da ONU homenageados em cerimónia presidida pelo Presidente da República
  • Navio patrulha português visita Nigéria para estreitar cooperação no combate à pirataria no Golfo da Guiné
  • Fragata da Marinha Portuguesa atracou no Alfeite
  • Cerimónia Militar Comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores
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