Nº 2628 - Janeiro de 2021
A Batalha do Quitafine

 

A Batalha do Quitafine

Tenente-general José Francisco Nico

 

O Tenente-general José Francisco Nico é natural de Lagos e ingressou na Academia Militar em 1960. Tendo sido qualificado como piloto operacional de aviões de caça, serviu na Guiné entre 1967 e 1970, na Esquadra 121 “Tigres”, território onde cumpriu 1.269 missões, em Fiat G-91, DO-27, T6-G e AL III. Ao longo da sua carreira, entre outras funções, foi comandante da Base Aérea nº 6, Chefe de Divisão de Planeamento Estratégico do EMGFA e Comandante do COFA, em acumulação com funções NATO. Finalmente, exerceu o cargo de Vice-CEMFA, tendo transitado para a situação de reserva em dezembro de 2003.

Militar muito ativo, dotado de forte personalidade e capacidade de liderança, atributos que revelou ao longo da sua longa carreira, veio agora publicar um livro que titulou “A Batalha do Quitafine”, uma edição de autor, onde relata as suas experiências no teatro de operações da Guiné, nos agitados anos de 1967 a 1970.

O título que atribuiu à sua obra, reporta à atividade aérea desenvolvida no litoral sul daquele território, na península do Quitafine, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, no período de outubro de 1967, data em que foi atribuída à FAP a missão de eliminar o armamento antiaéreo introduzido na região, até 20 de janeiro de 1970, momento em que o PAIGC desistiu da intenção de aí levantar uma “área dita libertada”.

Quitafine, no litoral sul da Guiné.

 

O autor, na parte final da sua nota introdutória, expressou assim o seu objetivo:

– “É a memória do desempenho dos Tigres da Esquadra 121 de Bissalanca, no que pode ser considerada a nossa Batalha do Quitafine, que fui pesquisando e recolhendo informação ao longo dos tempos que, agora analisada com base na experiência e conhecimentos adquiridos na minha carreira militar, registo para o futuro no presente livro”.

Trata-se uma obra fundamental para o estudo da nossa História recente, relatando a atuação dos nossos meios aéreos na Guiné, revelando-se também importante para uma melhor compreensão da envolvente política e social daquele tempo. Porque vai descrevendo, para além dos meandros político-militares do conflito e da abordagem estratégica da nossa presença em África, a geografia da região, a postura das forças portuguesas e do PAIGC e outros aspetos técnicos e operacionais. Passamos agora a percorrer a estrutura deste livro de José Francisco Nico:

– Sob o ponto de vista espacial, o ambiente em que decorre a ação é o território da Guiné, que o então capitão Nico percorreu, de lés-a-lés, voando em missões de combate, em diversos tipos de aeronaves;

– No domínio temporal a obra cobre, essencialmente, o período de 1967 a 1970, mas o autor também se pronuncia sobre factos e circunstâncias ocorridos após a independência;

– A nível social deparamos essencialmente com uma comunidade militar, vivendo de forma espartana e aquartelada, espaços quase exclusivamente reservados a homens, na maior parte jovens, sujeitos à disciplina e práticas castrenses, dedicados em exclusivo ao cumprimento da missão, numa terra com clima inclemente;

– Quanto à linguagem, narrando as suas experiências, utiliza um jargão próprio do ambiente operacional e ainda uma outra mais técnica, quando se refere à descrição dos equipamentos militares. Noutros momentos utiliza uma linguagem mais académica, quando se pronuncia sobre os contornos históricos, políticos e jurídicos do conflito em que esteve envolvido e sobre o desfecho do mesmo.

O General Nico dividiu o seu livro em vários capítulos, que se distinguem pelos diversos tempos e pelos distintos lugares onde decorreu a ação:

– Na primeira parte, para além de uma elaborada nota introdutória onde partilha factos e convicções, o autor descreve os meandros daquilo a que chama de “Confronto de Assimetrias”, relatando a génese das guerras de libertação nos territórios ultramarinos, a evolução da defesa antiaérea do PAIGC e a assessoria cubana;

– Depois é a descrição das especificidades das ações de contraguerrilha desenvolvidas pela Força Aérea, em particular a deteção dos espaldões e as diferentes formas de as combater com os meios existentes;

– A terceira parte explana os primeiros meses da Batalha do Quitafine, a partir de finais de 1967, quando os insurgentes introduziram as antiaéreas fixas, obrigando as nossas forças a alterar táticas e prioridades;

Guiné, espaldão com AAA ZPU-4.

 

– O fragmento seguinte é uma narrativa dos momentos mais marcantes da Batalha do Quitafine, descrevendo o notável trabalho de organização do terreno executado pelos guerrilheiros, um heliassalto das nossas forças, os detalhes da “Operação Vulcano”, a reação adversária e as lições por nós aprendidas.

– Na parte V, são relatadas outras ações antiaéreas dos insurgentes, que levaram ao abate do piloto comandante do Grupo Operacional, depois recuperado, ao “Ataque com Olhos Azuis” onde elabora sobre o apoio da Suécia ao PAIGC e a acometida letal dos Fiat G-91 a Sangonhá, em 6 de janeiro de 1969, onde uma grande comitiva de guerrilheiros e convidados participava numa ação de propaganda, fazendo-se filmar e fotografar.

– Na parte final, a que o autor chama “Epílogo”, o General Nico desenvolve uma reflexão, baseada na experiência vivida, defendendo a contribuição vital do poder aéreo naquele conflito, mostrando que quando a supremacia aérea foi posta em causa, a motivação para combater dos militares das forças terrestres foi fortemente afetada. Refere-se ainda aos “santuários” de que os “rebeldes” dispunham nos países vizinhos, já que as “áreas libertadas”, amplamente proclamadas pelo PAIGC, “foram sempre uma fantasia”. Desenvolve ainda algumas considerações de natureza política sobre os acontecimentos de 1974, que levaram à independência da Guiné-Bissau em 10 de setembro de 1974 e à posterior conflitualidade interna e incipiente evolução económico-social do novo Estado, apesar das generosas ajudas externas.

Aqui chegados, voltando ao tema do livro, resta mencionar “Os Resultados da Batalha do Quitafine”, que o autor traça no final e que, segundo ele, se podem resumir da seguinte forma:

– A missão que foi atribuída à Força Aérea, em outubro de 1967, visava impedir a certificação da “área libertada” do Quitafine;

– Em 20 de janeiro de 1970, a guerrilha decidiu abandonar a utilização de AAA no complexo de espaldões do Quitafine;

– O PAIGC não conseguiu alcançar o seu principal objetivo que consistia em obter, perante as instâncias internacionais, o reconhecimento da posse e controlo daquele território;

– A Força Aérea empenhou-se, com êxito, na neutralização sistemática das defesas antiaéreas, o que ficou a dever-se à Esquadra 121 da BA12, aos seus pilotos, ao pessoal de manutenção e apoio e aos caças-bombardeiros Fiat G-91 R/4;

– O autor não identificou situações em que os alvos selecionados não tivessem justificação militar, embora em algumas circunstâncias os grupos de guerrilheiros, para se protegerem, se caldeassem com as populações civis, o que poderá ter ocasionado danos colaterais.

Cabina de pilotagem do Fiat G-91.

 

A experiência operacional de José Francisco Nico na Guiné, que ficou vertida nesta sua obra, representa mais um contributo para que a natureza do conflito e os acontecimentos ali ocorridos não fiquem esquecidos e se tornem mais claros e acessíveis ao grande público. Trata-se de um notável aditamento aos muitos livros e artigos até agora publicados e aos programas produzidos pela TV. Desta forma, prestou a Portugal mais um serviço relevante, contribuindo para que não se apague a memória.

Redigida com uma linguagem a todos acessível, mesmo quando trata de questões técnicas ligadas à aviação militar, assumindo os sucessos, mas também a míngua de lucidez nalgumas missões menos sucedidas e não esquecendo o esforço de todos os intervenientes, mesmo os atores menos visíveis, mas igualmente empenhados nas missões.

Finalmente, não resistimos à tentação de transcrever um pequeno excerto do texto, publicado a páginas 160 e que, julgamos ser um excelente resumo de toda a obra:

Ao entrarmos no último trimestre de 1967, começámos a perceber que o PAIGC e seus mentores cubanos estavam convencidos de que a disseminação de metralhadoras AA por todo o Quitafine seria suficiente para afirmar e manter o estatuto de zona libertada. Porém, nunca conseguiram atingir esse objetivo”.

Criteriosamente apresentado, num volume de 383 páginas, com capa contendo um sugestivo voo de uma parelha de Fiat G-91, a sobrevoarem a região do Quitafine, agregando inúmeras fotografias e mapas, fica esta obra à disposição dos leitores interessados, constituindo um valioso contributo para a História do conflito na antiga Guiné Portuguesa, que foi um verdadeiro confronto de vontades.

A Revista Militar agradece a oferta do livro A Batalha do Quitafine e felicita o Tenente-general José Francisco Nico.

 

Major-general Manuel de Campos Almeida

Vogal Efetivo da Direção da Revista Militar

Major-general
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