Nº 2686 - Novembro de 2025
Pessoa coletiva com estatuto de utilidade pública
Principais Conclusões para Reflexão

Direção da Revista Militar

Realizou-se no passado dia 25 de setembro de 2025, na Sala da Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional (AACDN) e em parceria com esta Associação, o workshop anual da Revista Militar sob o tópico: “A “nova” conjuntura Político-Militar Internacional. Impactos na Política de Defesa Nacional e no Sistema de Forças” que tinha por objetivo principal alinhar algumas ideias, produzir alguma reflexão e aferir das principais mudanças no contexto internacional com impacto nas Forças Armadas e na Defesa Nacional.

Este evento tinha também como objetivo preparar, em termos de contexto e conceptualização, a realização dos XI Encontros da Revista Militar, a realizar no dia 23 de outubro, no Instituto Universitário Militar (IUM), sob o lema “As novas tecnologias militares e os impactos no campo de batalha” e que terão, em breve, uma edição dedicada na nossa Revista Militar.

O supracitado workshop, como se deduz do programa, procurou juntar duas visões e relacionar o impacto do novo contexto internacional, de uma forma geral, mas com especificidades na área das tecnologias militares dos principais atores na cena internacional, e produzindo uma visão mais militar de alusão às Políticas de Defesa Nacional e operacionalidade das Forças Armadas, ao papel que cabe (ou deverá caber) neste inovador paradigma geopolítico e geoestratégico securitário.

Das várias considerações, quer durante as apresentações quer no debate, ou ainda nas palavras iniciais e de encerramento, sobressaem as palavras “mudança” e “tecnologia”. Afirmações como que a anunciar uma “nova” ordem global que se vai moldando e que será percecionada como uma “nova” ordem multipolar, onde os Estados ditos “diretores” tomarão primazia na salvaguarda dos seus interesses e assentam obviamente nos ganhos e na vantagem no acesso ao conhecimento da dimensão mais tecnológicos, apostando na preponderância do poder real sobre as retóricas das perceções adquiridas ao nível da tecnologia militar.

Neste contexto, vários protocenários podem ser levantados e podem estabelecer-se inúmeras correlações político-estratégico-diplomáticas que assentam em linhas de força ideológicas, económicas e militares. Essencialmente no aproveitamento das conjunturas de alianças que transformam cada vez mais o “nosso” mundo numa diálise permanente (e perigosa) entre o ocidente e o oriente, entre os regimes mais democráticos e mais autocráticos, entre as economias regionais e global, e que fazem surgir alianças bi-multilaterais em geografias conjunturais de oportunidade… o que tornam de difícil análise, perceção e estudo o Sistema Político Internacional.

Ainda assim, e tendo em referência a relação de poderes entre velhos e novos atores globais, a certeza de que existe um conjunto de inovadoras e decisivas tecnologias que transformaram o campo de batalha e alteraram a forma de combater, nomeadamente resultantes da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, que tem sido um laboratório para testar novas tecnologias militares. Inovações tecnológicas que ocorrem em todos os domínios das operações militares e que afetam o próprio entendimento do campo de batalha, implicando uma rápida adaptação operacional e uma maior flexibilidade estratégico-operacional.

Nesse paradigma inovador, estamos a assistir nestes cenários geopolíticos complexos ao surgimento de tecnologias disruptivas, nomeadamente na vertente ciber e no acesso ao espaço; no campo de batalha tridimensional, com os drones, munições inteligentes e sistemas de armas evoluídos, empregando inteligência artificial, algoritmos quânticos e tecnologias disruptivas, que fazem pender o poder para a vertente mais tecnológica de acesso ao conhecimento e, por isso, uma aposta no domínio dessas tecnologias disruptivas e decisivas no campo de batalha moderno é fundamental.

Assim, numa vertente mais operacional e tendo em mente o impacto para as Forças Armadas e para as Políticas de Defesa Nacional, podemos aferir pelo teor das comunicações e do debate que as alterações são muitas e muito significativas, e que a resiliência nacional deve ser assumida como uma prioridade, pois que a cooperação assente em elevados padrões tecnológicos só estará ao alcance dos que investirem na defesa nacional e que estejam em condições de acompanhar a inovação tecnológica como instrumental no desenvolvimento e na resiliência nacional.

Neste contexto, tudo aponta para que as novas tecnologias militares induzam no combate novos desafios para os comandantes em todos os escalões, implicando adaptações constantes na forma de combater e no emprego de meios militares, sendo que as Forças Armadas têm desafios significativos em lidar com os rápidos (e imprevisíveis) avanços das tecnologias militares, exigindo uma necessidade de formação continua, treino exigente e capacidade de resiliência constante, só ao alcance de Forças Armadas Profissionais e de pertença a Alianças Militares Estratégicas… como a Aliança Atlântica.

Em suma, a existência de tecnologias disruptivas inovadoras nos diversos domínios operacionais implica termos uma melhor análise dos riscos e das ameaças, pois que as ameaças híbridas são cada vez mais imprevisíveis e persistentes, com acesso a tecnologia de baixo custo e com elevada impacto nas operações militares. O combate no futuro e a doutrina operacional terão de ser adaptados à existência de novas capacidades geradas por novas tecnologias que reduzem a previsibilidade e aumentam a incerteza… onde a aposta na robótica, na inteligência artificial e na quântica é fulcral.

O workshop permitiu, em toda a linha das intervenções, identificar novos cenários geopolíticos e geoestratégicos com um grau de imprevisibilidade preocupante, onde a resiliência é assegurada por alianças, e em que as novas tecnologias serão o respaldo da retórica do interesse dos Estados num cenário conflitual mais exigente, mais dinâmico, mais multidomínio e multidimensional, e muito mais imprevisível e potencialmente mais perigoso.

Neste cenário complexo, o papel que se reserva às Forças Armadas e à Defesa Nacional é o de garantir previsibilidade na imprevisibilidade, resiliência na flacidez e de ser capaz de, na base da sua essência, garantir a segurança e o desenvolvimento da sociedade.

Os XI Encontros da Revista Militar, certamente, tendo por base algumas destas reflexões, irão aprofundar, complementar e/ou contrariar, algumas destas ideias e reflexões que nos pareceram ser as mais relevantes que sintetizam o debate que derivaram do workshop da Revista Militar 2025… veremos se se confirmam…

 

A Direção da Revista Militar

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by COM Armando Dias Correia