Nº 2580 - Janeiro de 2017
Transatlantic Relations in the Modern World
Dr.
Gregory Macris

Bom dia a todos. Gostaria de começar com um caloroso agradecimento aos organizadores e participantes deste colóquio.

É para mim uma honra, um privilégio e, francamente, um pouco intimidante estar aqui, esta manhã, perante uma plateia tão dotada. Após ter examinado o programa do colóquio, lamento não estar sentado do outro lado desta tribuna, a aprender em vez de tentar ensinar.

Há quatro anos tive o privilégio de frequentar a Academia Nacional de Guerra, a principal instituição do governo americano para o ensino de pensamento estratégico e formulação da política externa.

A cadeira mais notável que frequentei tratava da “Guerra para Pôr Fim a Todas as Guerras”, a Primeira Guerra Mundial, considerada por muitos historiadores como a maior falha do pensamento estratégico na história.

Escrevi vários artigos sobre a guerra enquanto estudante, e aquele que mais me recordo foi um intitulado “Voltar ao Mundo Velho para Cimentar Lugar no Novo”. Documentava o papel da população imigrante italiana dos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial.

Apesar dos preconceitos e intolerância de que era vítima, essa população demonstrou o seu patriotismo ao seu país adoptivo e foi aplaudida pelo seu heroísmo em algumas das mais sangrentas batalhas da guerra. E pela altura da terceira geração, já não eram mais americanos com hífen, mas pura e simplesmente americanos.

Claro que hoje, os italianos, e europeus em geral, já não estão a chegar ao território americano em ondas. A prosperidade duramente conquistada que surgiu no período pós-Segunda Guerra Mundial tratou disso.

Mas eles, e os seus descendentes, ajudaram a criar os laços indeléveis que hoje existem entre as duas margens do Oceano Atlântico. E é sobre isto que vim hoje falar: a parceria transatlântica, que é o cimento que une o velho mundo ao novo.

Que melhor forma de iniciar uma conversa sobre os laços transatlânticos do que falar sobre George Marshall, o famoso general e Secretário de Estado que deu nome ao plano parcialmente responsável pelo renascimento económico da Europa Ocidental?

Ouvimos frequentemente que “precisamos de um Plano Marshall” para o México. Para o mundo árabe. Para a África Subsariana.

Pode surpreender alguns, mas o Plano Marshall, uma das maiores conquistas diplomáticas dos Estados Unidos, foi bastante impopular no país, naquela altura. Mas o Secretário de Estado manteve-se firme, tal como o seu superior, o Presidente Harry S. Truman. E os dois fizeram história.

A Europa, em 1948, não era muito diferente do Afeganistão ou da Síria, em 2016. E tal como o Plano Marshall ergueu esta parte do mundo da guerra e ajudou a criar a Europa próspera e democrática de hoje – juntos podemos trabalhar para ajudar outras nações e regiões a tornarem-se seguras, pluralistas e modernas.

Não será fácil. Não será imediato. Mas nada que realmente valha a pena o é.

 

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Se fizéssemos um percurso mundial geopolítico, encontraríamos um mundo mais complexo do que o de Marshall e de Truman. Um mundo menos hierárquico, com o poder mais largamente partilhado.

Os fantasmas de conflitos do passado – o nacionalismo, o autoritarismo, a divisão sectária – reapareceram com uma aparência moderna, mas não menos perversa.

Não posso enfatizar demais que a unidade dentro da Europa e a parceria entre os Estados Unidos e a Europa continuam a ser duas premissas indispensáveis para a segurança e a prosperidade global.

A partir das cinzas da Segunda Guerra Mundial, há setenta anos, os Estados Unidos e a Europa construíram instituições como as Nações Unidas, a NATO e a União Europeia, que facilitaram o período de paz e crescimento económico mais sustentado da história.

Criaram novos princípios que hoje regem as relações entre nações e construíram uma estrutura moral e legal para proteger os direitos fundamentais de todos os seres humanos.

Ultimamente, temos presenciado um ataque ao multilateralismo e o surgimento de populistas na Europa e nos Estados Unidos, que abusam dos precisos direitos por que tanto lutamos.

E existem forças nocivas no mundo que aguardam ansiosamente a queda das instituições que os nossos antecessores construíram juntos.

 

***

 

Mas a parceria euro-atlântica não surgiu para o melhor dos tempos; nasceu e foi nutrida para enfrentar os desafios que nenhuma nação ou grupo, por si só, conseguia superar isoladamente. A necessidade de unidade transatlântica é tão importante como nunca – e o nosso espírito resoluto deve permanecer igualmente forte.

Temos de provar que estão errados os especialistas que declaram que a Europa como um ideal está morta. Rejeitar a afirmação de que devemos construir muros para separar países em vez de pontes para os unir. E não abandonar os princípios que nos definiram no passado.

Sem dúvida, os nossos países enfrentam hoje desafios económicos sérios. Não existem soluções instantâneas ou varinhas mágicas.

Mas a história mostra que a adaptação à tecnologia é uma constante. E eu acredito que a comunidade transatlântica deve olhar para o futuro com confiança.

O presidente Obama disse, na Alemanha, há alguns meses, que o nosso desafio comum é desencadear a próxima onda de inovação, permitindo que os nossos empresários transformem as suas boas ideias em novas empresas que criarão riqueza e emprego.

As ferramentas existem. Uma delas esteve claramente presente há duas semanas em Nova Iorque, onde negociadores americanos e europeus fizeram progressos na décima quinta ronda de negociações da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, o T-TIP.

O T-TIP irá reforçar as relações transatlânticas num período de incerteza geopolítica e crescimento económico desigual. Permitir que nossas nações definam padrões globais em linha com os valores compartilhados. E fornecer um poderoso contra-argumento aos que vêem os acordos de comércio como passo negativo.

Ultimamente, temos ouvido vozes cépticas sobre o T-TIP. Mas os Estados Unidos continuam plenamente empenhados nestas negociações e estão mais comprometidos do que nunca no seu sucesso.

 

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A relação transatlântica tem aumentado a prosperidade para todos os envolvidos. Mas a relação é muito mais do que o comércio.

Onde se encontraria o mundo se a Europa e os Estados Unidos tivessem dado ouvidos aos que tentaram dividir-nos?

Nunca teríamos derrotado o comunismo ou deitado abaixo o Muro de Berlim. Nunca teríamos unido esforços para virar a maré na luta contra a SIDA.

Em Dezembro, os Estados Unidos e a UE incluíam-se entre os principais defensores do mais abrangente e ambicioso acordo alguma vez negociado sobre a mudança climática global. Este pacto, em breve, entrará em vigor, prometendo um futuro mais seguro para o mundo inteiro.

Há aqui uma lição. Nunca devemos subestimar o bem que foi alcançado pela unidade da Europa e pela sua parceria com os Estados Unidos.

A nossa parceria é fundamental para a segurança de todos os nossos países, particularmente no novo ambiente de ameaças que hoje enfrentamos.

Os Estados Unidos nunca esquecerão que o Artigo quinto do Tratado do Atlântico Norte foi accionado pela primeira vez após o 11 de Setembro. E, independentemente do que podem ter lido nos últimos tempos, os EUA nunca deixarão de cumprir as suas obrigações do Artigo, no caso de ataque a um membro da NATO – qualquer membro da NATO.

A NATO é uma aliança defensiva. O povo russo, em particular, deve saber que, apesar do que dizem os seus líderes, a NATO não procura enfraquecer, conter ou dividir a sua nação, nem qualquer outra.

Mas a vontade dos países da NATO e da UE de procurar um terreno comum com a Rússia não significa que vamos deixar de defender a liberdade e o direito internacional e é por isso que permanecemos firmes no nosso apoio para uma Ucrânia estável, unida e democrática.

A agressão flagrante não é algo que qualquer um de nós está preparado para aceitar. E não há lugar no mundo que deva compreender isso melhor do que a Europa.

Por isso, insistimos num reverso da anexação ilegal de Crimeia e numa solução diplomática no leste da Ucrânia – ao mesmo tempo que incentivamos o governo da Ucrânia a manter o rumo e acelerar o ritmo da reforma.

 

***

 

Virando para o sul, a segurança mútua também deve ser a nossa palavra de ordem na resposta à ameaça representada pelo Daesh e pelos seus afiliados.

Hoje, cada um dos membros da NATO e da UE contribui para a campanha para derrotar o Daesh. A nossa coligação inclui quase 70 estados, e juntos já libertámos grande parte do território que o Daesh controlava.

A nossa coligação prevalecerá neste confronto, sem alterar a natureza das nossas sociedades, e sem trair os mesmos valores democráticos que os terroristas juraram destruir.

Ainda há muito trabalho a fazer. Temos de refutar, por exemplo, a falsa narrativa que atrai os jovens para o abismo do terror. E temos que coordenar as nossas políticas e compartilhar informações de forma aberta e célere para impedir que os terroristas voltem aos seus países de origem e perpetuem cada vez mais crimes.

É impossível discutir a segurança internacional e a necessidade de unidade transatlântica sem discutir a tragédia na Síria.

Esta guerra trágica foi agravada pela crueldade de um regime que utiliza o gás de cloro e bombas de barril para matar os seus próprios cidadãos. A agravar, temos a decisão irresponsável por parte da Rússia de agregar os seus interesses e reputação aos de Assad.

Apesar das dificuldades em dialogar bilateralmente com a Rússia – evidenciado pela nossa decisão, há duas semanas, de suspender as discussões relativamente à cessação das hostilidades, não estamos seguramente a desistir da Síria, a abandonar a busca da paz nem a via multilateral.

Continuamos empenhados numa Síria pacífica, estável, inteira, unida e não-sectária e vamos continuar activos na busca desta paz. No curto prazo, todas as partes do conflito têm a obrigação de permitir a entrega, sem restrições e com segurança, de assistência humanitária. Resta à Rússia e ao regime permitir e garantir que isso seja possível.

Acabar com a guerra na Síria é fundamental por variadas razões, incluindo para fazer menos perigoso o fluxo de refugiados para a Europa. No entanto, em última análise, a única solução satisfatória para o dilema dos refugiados é parar os conflitos que os forçam a abandonar os seus lares.

Não foi a minha intenção pintar um quadro tão sombrio dos desafios colocados perante a relação transatlântica, embora eles sejam muitos e assustadores. Permitam-me, então, terminar com uma nota positiva, usando uma metáfora do meu desporto preferido – o passatempo de pastores escoceses desde os tempos antigos – o golfe.

A prova derradeira de um campeonato de golfe coloca equipas de 12 jogadores europeus e americanos numa competição de partidas chamada Copa Ryder. A Copa foi inaugurada em 1927, mas entrou na sua fase competitiva apenas em 1979, quando o lado outrora britânico e irlandês se ampliou para incluir todos os europeus – uma mudança que acompanhou a expansão da União Europeia.

Ao contrário de eventos de golfe individuais, que são calmos e respeitosos, a Copa Ryder traz à tona emoções fortes, e as multidões apoiam ruidosamente a equipa da casa e vaiam impiedosamente a equipa rival.

A pressão é muito intensa, uma vez que o orgulho pessoal e o amor pelo país – ou continente – estão em exibição.

No entanto, após os vencedores se encharcarem em champanhe e os perdedores secarem as lágrimas, as equipas reúnem-se para uma celebração do próprio jogo, e os significativos fundos angariados pelas partidas são encaminhados para instituições de caridade merecedoras em ambos os lados do Atlântico.

Americanos e europeus, deixando de parte o oceano que os divide e promovendo os laços que os ligam, tudo em prol de valores e interesses compartilhados. É esta a nota – positiva! – com a qual quero terminar a minha apresentação.

 

Muito obrigado.

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2017-11-01
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Dr.

Gregory Macris

Conselheiro para Assuntos Políticos e Económicos da Embaixada dos EUA em Portugal. (...)

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by CMG Armando Dias Correia