Nº 2633/2634 - Junho/Julho de 2021
Crónicas Bibliográficas

O Exército, São João de Deus e a Rainha Santa Isabel: história e cultura militares

 

O livro “O Exército, São João de Deus e a Rainha Santa Isabel: história e cultura militares”, da autoria do Professor Doutor Augusto Moutinho Borges (textos) e do Luís Chaves (fotos) é muito mais do que história militar de Portugal. É uma verdadeira obra de arte, que nos transmite conhecimento e lições da história, constituindo-se num instrumento de cidadania e de identidade.

Apesar de separados por cerca de dois séculos, São João de Deus e a Rainha Santa Isabel têm algo muito importante em comum, para além de serem Patronos de dois serviços do Exército (Serviço de Saúde Militar e Serviço de Administração Militar) ou de estarem representados no exterior do Panteão Nacional (juntamente com o Santo Condestável e Santa Engrácia – que dá o nome à igreja). É que ambos “semearam” a paz e a fraternidade e cuidaram dos pobres, dos doentes e dos mais necessitados.

Os textos e livros sobre os Exércitos, tratam normalmente de combates e batalhas, de organização e logística, de tática e estratégia, de sistemas de recrutamento, de equipamento, armamento e tecnologias, mas também de combatentes e de comandantes. Nesta obra, que pode ser enquadrada na “Nova História”, os autores tratam de outro tipo de combatentes, designadamente de quem salvou vidas, de quem salvaguardou a Paz ou de quem tratou feridos, fossem eles civis ou militares.

A obra está organizada num “Prefácio”, da autoria do General José Nunes da Fonseca, que releva a ligação do Exército com os dois Santos Padroeiros, uma “Introdução”, um capítulo dedicado a “São João de Deus na História e Cultura Militares”, seguido de outro intitulado “Rainha Santa Isabel na História e Cultura Militares” e de um capítulo final sobre “São João de Deus e a Rainha Santa Isabel na Arte”, imediatamente antes da bibliografia.

Comecemos pela introdução, em que os autores fazem a apresentação dos dois protagonistas sublinhando o fato deste livro constituir “uma boa amostra do relacionamento entre a sociedade civil, religiosa e militar”. Referem ainda, que o “estudo destas duas personagens e dos espaços geográficos associados às suas vidas revela os percursos que projetam a própria identidade nacional.”.

Seguem-se dois capítulos relativos à ligação entre os dois Santos e a História e Cultura militares, com especial enfase para a relação entre S. João de Deus e os reais hospitais militares em Portugal.

Ligam-nos ao Exército os valores da solidariedade, da fraternidade, do altruísmo e da dignificação do ser humano, com os quais os militares do Exército, desde o soldado ao general, e independentemente da sua confissão religiosa, se identificam enquanto servidores da Pátria que juram defender com o sacrifício da própria vida.

Os autores destacam os percursos de vida e morte dos dois Santos, ligados a Portugal e a Espanha.

A Rainha Santa Isabel, nascida em Saragoça a 4 de janeiro de 1271, viria a falecer em Estremoz, a 4 de julho de 1336 (com 65 anos) e a ser sepultada em Coimbra. Na Academia General Militar de Saragoça, cuidam da imagem e do espólio da sua Princesa de Aragão e Rainha de Portugal, numa cidade em que é venerada, inclusivamente numa igreja barroca dedicada a Santa Isabel de Portugal.

S. João de Deus, nascido em Montemor-o-Novo em 1495, foi pastor e militar antes de dar a sua vida em prol dos necessitados, tendo falecido em Granada, a 8 de março de 1550 (com 55 anos), sendo também reconhecido por Portugueses e Espanhóis. A São João de Deus foi dedicada uma basílica de estilo barroco com o seu nome, na cidade de Granada, que abriga os seus objetos pessoais e inclusivamente os restos mortais numa urna de prata maciça.

Destaca-se o facto de, na parte relativa a São João de Deus, e para além de descrever parte da sua vida, que transformou João Duarte Cidade em João de Deus, e que levaria à criação da Ordem de Hospitalidade, os autores incluem uma análise cuidada e científica da evolução da rede hospitalar em Portugal e mais particularmente da rede militar. Revelam inclusivamente algumas curiosidades, como o apoio da Ordem Hospitaleira na batalha de Lepanto (batalha naval entre a Liga Santa e o Império Otomano em 1571), a assistência sanitária desde a idade média, os primeiros hospitais de campanha, o primeiro convento hospital São João de Deus, a enorme lista de Reais Hospitais Militares existentes em Portugal em 1814 (ver p. 60) e o apoio e administração hospitalar fornecido pelos irmãos hospitaleiros de São João de Deus, entre 1640 e 1834, ano relativo ao final das ordens religiosas e dos hospitais militares e curiosamente do início dos enfermeiros militares. Na prática, estamos a falar de uma obra sobre a história da saúde militar em Portugal, que tem em São João de Deus, o criador, o exemplo e o patrono.

No caso da Rainha Santa, retratada como bela, inteligente, gestora, pacificadora, devota e caridosa, os autores sublinham o seu trabalho assistencial, o apoio à diplomacia e à paz, e as razões da sua escolha como Patrona da Administração Militar e da Cidade de Coimbra.

Segue-se um terceiro capítulo relativo à relação entre os dois Santos e a arte, que ultrapassa, em muito, as fronteiras de Portugal.

Segundo os autores, São João de Deus e Santa Isabel são dos santos mais representados em escultura, pintura e painéis de azulejos, a par de Santo António. Em termos heráldicos militares, Santa Isabel é associada aos besantes que se transformam em rosas (alusão ao milagre) e São João à figuração da romã aberta (que significa granada em castelhano e relativa à alusão ao Menino Jesus que lhe vaticinou “João, Granada será a tua cruz”) e mais recentemente ao transporte de um doente ao colo (como na escultura da capa, da autoria de José Ferreira Thedim). Neste capítulo, os autores apresentam um estudo exaustivo dos nomes dados a hospitais, clínicas, escolas de enfermagem, fortes, baluartes e revelins, arte pública, painéis azulejares, parques e jardins, assim como a representação em brasões, arte transmitida em imagens magnificas e para muitos de nós desconhecidas.

No final, os autores incluem uma bibliografia rica e diversificada, mas clara e compreensivelmente dominada por nove livros e catorze artigos da autoria do Professor Doutor Moutinho Borges.

As cerca de 180 páginas desta obra, em boa hora com textos em português e inglês, são coloridas pelas excelentes fotografias de Luís Chaves, com imagens magnificas de locais que muitos conhecemos com alguma superficialidade, mas que agora temos a oportunidade para um olhar mais profundo e orientado para o tema da obra; o Exército e dois dos seus mais queridos Santos Padroeiros.

A edição de imagem, a coordenação editorial e a revisão foram trabalhadas por quatro mulheres da By The Book com um dom especial: as duas Maria João, a Margarida Oliveira e a Ana de Albuquerque.

Em resumo, esta obra de arte é rica em termos de conteúdo, é extraordinária em termos de imagem, é universal pelos dois Santos da Igreja e pelo fato de ser bilingue, é um instrumento de cultura histórica militar e religiosa e um motivo grande de orgulho do Exército de Portugal.

Como escreveu S. João de Deus, “Tudo perece. Só a boa obra permanece”. E esta é certamente uma boa obra, que vai permanecer para sempre no património do Exército Português.

A Revista Militar agradece a amável oferta do livro e felicita os autores, a editora e o Exército.

Major-general João Vieira Borges

Vogal da Direção da Revista Militar


 

Major-general
João Jorge Botelho Vieira Borges
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